O futuro da informação também depende de saber trabalhar em rede.
Depois do Festival 3i, uma pergunta ficou ecoando: quem consegue construir confiança pública sozinho hoje? Este texto parte dos debates sobre IA, desinformação e jornalismo para falar de colaboração, campanhas em rede e da necessidade de transformar comunicação em infraestrutura de incidência.
Não estive presencialmente no Festival 3i, mas acompanhei algumas conversas, publicações e repercussões que circularam a partir dele. E uma questão ficou comigo: quando falamos sobre o futuro da informação, talvez estejamos olhando muito para as ferramentas e pouco para as alianças.
É claro que os debates sobre inteligência artificial, desinformação, eleições e sustentabilidade do jornalismo são urgentes. O próprio festival colocou esses temas no centro da conversa pública, reunindo discussões sobre o papel da tecnologia, os riscos para o ambiente informacional e os desafios de quem trabalha com produção, circulação e confiança em tempos de disputa permanente.
Mas, olhando a partir da PontoCo, me parece que existe uma camada anterior atravessando tudo isso: hoje, quase nenhuma organização consegue construir confiança pública sozinha.
Isso vale para o jornalismo, que enfrenta uma crise de modelo, audiência e credibilidade. Vale também para a sociedade civil, que muitas vezes tem conhecimento territorial, dados, legitimidade e capacidade de mobilização, mas nem sempre consegue transformar isso em presença pública consistente. Vale para organizações que atuam com clima, democracia, direitos, cultura ou desenvolvimento territorial e que precisam disputar narrativa em um ambiente cada vez mais fragmentado.
A crise da informação não é apenas uma crise de conteúdo. É também uma crise de ecossistema.
Por isso, uma das conversas que mais me interessam nesse momento é sobre colaboração. Não como um valor abstrato, desses que todo mundo defende em apresentação institucional, mas como método de trabalho. Como forma de planejar, distribuir responsabilidades, construir confiança e medir impacto.
Na PontoCo, temos chamado esse tipo de articulação de Campanhas em Rede.
E aqui vale fazer uma distinção importante: campanha em rede não é uma campanha com muitos logos. Também não é um grupo de organizações combinando postar a mesma arte no mesmo dia. Isso pode até fazer parte da operação, mas não é o que sustenta a estratégia.
Uma Campanha em Rede começa quando diferentes atores entendem que podem produzir mais impacto se trabalharem a partir de um propósito comum, com papéis complementares e uma narrativa compartilhada. Uma organização pode contribuir com dados, outra com presença territorial, outra com legitimidade junto a uma comunidade, outra com linguagem jornalística, mobilização digital ou articulação política. Quando essas capacidades se encontram com método, a comunicação deixa de ser apenas emissão e passa a funcionar como infraestrutura de incidência.
Foi por isso que o guia lançado pela Fundación Avina sobre relações simbióticas entre jornalismo e sociedade civil me chamou tanta atenção. O material parte de uma imagem simples: assim como na natureza algumas espécies prosperam porque se conectam com outras, o jornalismo também encontra força na simbiose. Colaborar, nesse sentido, não é apenas somar esforços; é criar relações mutuamente benéficas, capazes de ampliar o olhar, potencializar o impacto e gerar ecossistemas mais resilientes.
Esse ponto é importante porque tira a colaboração do lugar do gesto simpático. A pergunta deixa de ser “como podemos fazer algo juntos?” e passa a ser “o que só conseguimos mover se fizermos juntos?”.
Essa mudança parece pequena, mas muda tudo. Muda o desenho da estratégia, muda a divisão de papéis, muda a relação com os públicos e muda também a forma de medir resultado. Afinal, quando falamos de temas públicos complexos, alcance não pode ser o único indicador de sucesso. Uma campanha pode não viralizar e ainda assim abrir uma conversa decisiva. Uma reportagem pode não ter milhões de acessos e ainda assim pressionar uma instituição. Uma ação territorial pode não aparecer nos dashboards digitais e ainda assim mudar a forma como uma comunidade se organiza.
O próprio guia defende que planejar impacto desde o início ajuda a orientar decisões editoriais e estratégicas, alinhar expectativas e garantir que os esforços compartilhados gerem valor público.
Essa é uma chave importante para pensar comunicação hoje. Em um ambiente saturado de conteúdo, impacto não é só aparecer mais. É conseguir mover algo.
E, para mover algo, uma única voz raramente basta.
Talvez seja por isso que a colaboração precise ser tratada com mais seriedade. Trabalhar em rede não significa perder identidade, nem abrir mão da autonomia de cada parte. Pelo contrário: uma boa colaboração depende justamente de clareza sobre valores, princípios, objetivos e limites.
Quando uma colaboração não tem método, ela tende a virar uma sequência de reuniões, alinhamentos e entregas que até movimentam as organizações, mas nem sempre movimentam o debate. Quando não há uma narrativa comum, cada parte comunica a partir do seu próprio repertório e a campanha perde força como campo coletivo. Quando não há confiança, a rede começa a disputar protagonismo em vez de construir consequência.
Por outro lado, quando existe uma arquitetura bem desenhada, a colaboração ganha outro tipo de potência. Cada organização entende o papel que pode cumprir, cada mensagem passa a ocupar uma função dentro da estratégia e cada ação deixa de ser apenas uma entrega isolada para sustentar uma direção comum.
Esse cuidado aparece também no guia da Avina quando o material reforça que uma boa colaboração não exige renúncia à identidade. O que ela exige é compatibilidade entre valores, princípios editoriais e objetivos institucionais, além da capacidade de antecipar tensões de tempo, linguagem e cultura organizacional.
Talvez essa seja uma das perguntas que ficam depois do Festival 3i: diante de um cenário marcado por IA, desinformação, eleições e fragmentação da confiança, com quem estamos construindo as condições para que boas informações circulem, permaneçam e produzam algum tipo de movimento?
Para a PontoCo, essa pergunta é central porque Campanhas em Rede não são apenas uma forma de organizar ações coletivas. São uma maneira de construir campo. E construir campo exige mais do que comunicação. Exige leitura de contexto, clareza de narrativa, pactos entre atores, inteligência sobre circulação e formas de medir aquilo que nem sempre aparece no primeiro dashboard.
No fim, talvez a diferença esteja aí: comunicar é colocar uma mensagem no mundo. Construir campo é criar as condições para que diferentes vozes, a partir de lugares e legitimidades distintas, consigam sustentar uma mesma direção pública.
Em tempos de desinformação, excesso de conteúdo e disputa permanente por atenção, esse talvez seja um dos trabalhos mais importantes: não apenas produzir mais mensagens, mas construir confiança em rede.
Baixe o guia da Fundação Avina: https://festival3i.org/festival-3i-2026-fundacion-avina-lanca-guia-para-relacao-entre-jornalismo-e-sociedade-civil/